Arquivo | abril, 2011

Amendoim cozido

26 abr

Éramos duas meninas amarelas vindas de Salvador numa tentativa frustrada de tentar socializar com brasilienses estranhos numa mesa de bar. Um senhor com um saco de estopa se aproximou da mesa, e chamou a nossa atenção: “amendoim, amendoim”. Na saudade de qualquer coisa familiar que nos faria sentir melhor, as mãos se moveram rapidamente pra pegar a amostra do produto. Mas, quando colocamos na boca, a estranheza:

– É seco.

Mais uma coisa na lista de decepções.

– É torrado – disse alguém – Mas o que vocês esperavam?

Quase em uníssono, contamos do amendoim cozido, comum nas festas juninas e que era impossível de parar de comer. A estranheza das pessoas foi um banho de água fria.

– Não, nunca ouvi falar disso em Brasília. Acho que ninguém faz desse jeito aqui.

E as várias tentativas de achar amendoim cozido nos meses seguintes confirmaram a teoria do nativo. Blam.

Ok, é verdade que essa história tem aquele tom nostálgico e chato da saudade de casa. Mas, de fato, esse era o momento, quando as coisas na nova cidade nunca serão tão boas quanto as de casa. Especialmente tendo Brasília, uma cidade bem fora dos parâmetros normais, de um lado e Salvador, com todo o ideário romântico da baianidade (então, eu disse que era socióloga!), do outro. Mas passou, ainda bem. Anos depois, muito mais adaptada em Brasília, descobri que podia comprar amendoim aqui e cozinhá-lo. Não vamos falar da quase obviedade disso. Mas eu não fazia ideia de como cozinhar arroz quando cheguei, então me dêem um desconto.

De qualquer maneira, pra quem nunca comeu amendoim cozido, você não sabe o que está perdendo. Apesar de ser comum no São João, sempre tem alguém vendendo no bar, em carrinhos na rua, então é possível comprar durante o resto do ano em Salvador e acredito que em outros estados do Nordeste. Comer amendoim cozido sempre me leva de volta pras festas do meio do ano em uma cidade no interior da Bahia, sentada na mesa com os primos e alguma tia dizendo que íamos passar mal por comer tanto. É a tal da comfort food. 

Minhas investigações sobre a receita comprovaram mais uma vez que essa história de comida típica não tem nada de única ou autêntica. O amendoim cozido, ou “boiled peanuts”, pode ser encontrado também no sul dos Estados Unidos, na China e na Índia.

Aqui em Brasília achei pra comprar o amendoim cru na Feira do Paraguai e na Feira do Guará, mas sei que também tem em Sobradinho. É possível que seja encontrado em feiras em outras cidades com migração nordestina. Na hora de escolher, peça pelo amendoim mais verde – é bem mais gostoso e cozinha muito mais rápido (lembrando que a melhor época pra comprar é junho-julho).

Amendoim Cozido

40 minutos pra fazer pra 4 pessoas comerem (ou duas pessoas esganadas)

Precisa de quê?

  1. 2 latas de amendoim cru (o sistema métrico da feira brasileira!)
  2. Água
  3. Sal
Faz assim, ó
  1. Pra tirar toda a sujeira, lave os amendoins até que a água barrenta fique limpa.
  2. Em uma panela de pressão (claro que também pode ser feito em uma panela normal, só vai demorar mais tempo), coloque o amendoim e adicione água, até cobrir o amendoim.
  3. Tempere: coloque sal na água até que ela tenha gosto de água do mar. Mesmo. A casca absorve bem o sal, então precisa ser bastante pra salgar.
  4. Feche a panela de pressão e leve ao fogo durante 40 minutos. Abra a panela e experimente um: se estiver muito duro, volte para o fogo. O amendoim deve estar macio.
  5. Agora coma acompanhado de cerveja gelada ou de uma cachacinha. É possível que não sobre nada e você não precisa se sentir mal por isso.
  6. Pra se sentir melhor, vá dançar forró depois. Dizem também que é afrodisíaco…
Quê mais?
  1. Se, por algum acaso inexplicável do destino, sobrar algum pouco, você pode manter na geladeira por três dias ou congelar. Depois, é só aquecer em água fervente de novo.
  2. Nos EUA, a água do cozimento tem outros temperos: você pode adicionar cerveja ou pimenta, por exemplo.


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O primeiro

26 abr

Essa coisa de abrir alas pra uma coisa nova nunca parece ter as palavras certas.

Digamos que depois de cinco anos tendo uma cozinha própria (a.k.a sair da casa de mamãe e ter que cozinhar pra mim mesma), de adquirir marcas de combate com o fogão, e fazer coisas boas e coisas intragáveis,  tomando gosto pela coisa, chegou a hora de ter um blog sobre comida. Porque essa necessidade de partilhar com o mundo o que eu sou e faço é mais velha do que isso – o blog pessoal completa 8 anos mês que vem.

A proposta é mostrar que dá pra cozinhar – e se divertir com isso – numa cozinha apertada, com pouca grana (afinal, a bolsa da CAPES é uma merreca) mas com o prazer que me dá cozinhar e comer bem. E tudo isso misturado a um mestrado em Sociologia da Alimentação em andamento. Comida aqui é assunto de toda hora – e por isso a alcunha de #crazycooklady.

E deixa o resto pra ir contando depois.