Então…

4 ago

Não é que o fogão esteja parado. Mas é o mestrado que monopoliza toda minha vontade de escrever e/ou de me dar ao trabalho.

Agora as coisas tem andado pra outros lados. A troca do botijão de gás às 8 da manhã, o cuscuz apressado e o fogão novo que vem aí anunciam a mudança na rotina. Enquanto o salário não chega, descobrir que a Etsy entrega no Brasil criou toda uma nova ansiedade consumista.

Especialmente a proposta da lojinha Laura’s Last Ditch. Eu não sei qual o meu incômodo. Talvez seja aquela coisa de foodie de dizer, com orgulho, que “tenho um ralador da década de 50 que era da minha avó” ou um “moedor de carne da década de 20 do bisavô”. Aí fico encafifada com a necessidade de inventar tradições pra mim. Como lá em casa ninguém nunca gostou de cozinhar, não tem livros de receita ou utensílios domésticos guardados – afinal de contas, esse é um sentido, um valor, um gosto que eu criei. Minha mãe e minha tia observam as minhas opções com uma certa preocupação, inclusive.

Mas o lindo é que em tempos de cultura de memória (se interessou, leia o Andreas Huyssen) eu posso comprar as memórias materiais da família de alguém. E tornar minhas as memórias. Se alguém conta uma historinha legal, fica melhor ainda. E nem vem com essa história de autêntico, hein? There’s no such thing. Tradição é inventada por definição.

E eu nunca disse que era razoável, certo? A academia me explica – meu orientador diria que eu sou neo-folclorista 😛 – e eu fico feliz com isso.

Então, pra que ter isso:

Quando você pode servir assim?

Ou fazer assim:

E assim?

São as maravilhas do mercado. Algum foodie meio pimba meio hippie pode até apontar o dedo pra mim, mas ó… preguiça sem fim, viu?

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Bastidores da pesquisa

17 maio

Feira de São Joaquim, Salvador, Bahia.

Cuscuz de Milho

3 maio


Definitivamente, “cuscuz” foi uma das primeiras palavras que me preocupei em escrever certo. Pergunte a qualquer um que tenha intimidade comigo: eu sou capaz de comer cuscuz todos os dias. T-O-D-O-S. Namorido, sertanejo lá do interior da Bahia, sofre com minha capacidade, e quando faço com muita frequência faz aquela cara de “ai, essa menina da cidade deslumbrada”. Com um ovo mexido e manteiga de garrafa, é possível que eu coma uma porção para quatro pessoas, para desespero geral da nação. Não, eu não meço meu colesterol regularmente, obrigado.

A massa de milho cozida numa panela à vapor sempre esteve na mesa, desde que eu me mudei pra Salvador, nos idos de 1993. Muito provavelmente, meu pai, de volta ao estado natal, se refestelava comendo as coisas que sentira saudade no Rio de Janeiro. E o cuscuz estava lá, junto com sua xícara de café com leite e a manteiga Aviação. Claro que não sei quando comecei a comer, mas minha mãe diz que morando na Bahia, logo virei a menina-cuscuz e também a menina-farofa-da-praia. Eu sempre passava mais manteiga do que devia, e mamãe regulava a quantidade de ovos que acompanhavam. “Se eu deixar, você come todo dia”, reclamava. Eu era uma criança mono-temática e cri-cri, um dia desses conto da época que só comia pepino com purê de batata. Quando minha mãe dizia que não podia, eu lembro de uma babá de lá que fazia uma misturinha de leite com coco pra jogar em cima – leite, côco ralado e açúcar – meio que uma coisa do Recôncavo. Cuscuz com suco de maracujá foi meu café da manhã por muito tempo.

Quando eu ia pra casa da minha avó paterna, no interior, a experiência era ainda mais prazerosa. Todo dia, bem cedinho, ia comprar leite pra ela. Leite de vaca recém-tirado, que eu tomava com achocolatado e açúcar, bem quentinho – no frio que fazia de manhãzinha. Comia o cuscuz dela, que é cheio dos quiproquós: a massa tem que descansar 10 minutos e precisa misturar tapioca seca pra dar a liga – uma irmã um pouco mais granulada do polvilho de mercado, que substitui bem. Lá podia tudo, ovo caipira da gema vermelha e muita manteiga de garrafa. Me fartava.

Na mudança pra Brasília, sem cuscuzeira por um tempo, o café da manhã teve que mudar. Quando visitava o ainda namorado, achava graça das invenções de seus roomates. Eles também não tinham a panela pra fazer, então improvisavam uma cuscuzeira: tiravam a válvula da panela de pressão e colocavam em seu lugar um pote vazio de margarina com um furo embaixo, direcionando o ar da pressão pra dentro do pote. Tampavam o pote e deixavam a massa lá durante uns 5 minutos, e tinham um cuscuz individual no fim desse tempo. Eu que não tenho medo de panela de pressão ficava bastante tensa, achando que o pote de margarina ia explodir lançando grumos de massa de cuscuz pelando, mas nunca ouvi falar sobre nenhum acidente. Namorado, tentando me ganhar e conseguindo, fazia cuscuz pra mim nesse armengue. É pena que não tenho fotos. Mais um DIY de estudantes durangos morando fora de casa.

O cuscuz que me faz ter um dia feliz é esse, de feitura simplória., como costumam ser as receitas de cuscuz que recebem o rótulo questionável de “nordestinos”. Mas as variações são muitas, tio google pode mostrar pra vocês, como o cuscuz “paulista” que é cozido no vapor com vários acompanhamentos.  Vale o que mais vocês quiserem.

Cuscuz de milho

20 minutos para alimentar 2 famintos (ou uma Taís)

Precisa de quê?

  • 2 xícaras de farinha de milho tipo Flocão
  • 3/4 de xícara de água
  • 1 colher de sopa de tapioca seca/polvinho
  • Sal marinho e pimenta do reino à gosto
  • 2 ovos

Faz assim, ó

  1. Em uma tigela grande, despeje a farinha de milho, a tapioca, o sal e a pimenta. Misture.
  2. Aos poucos, despeje a água. A quantidade varia de acordo com a umidade do dia, essa é a quantidade que uso num dia normal em Brasília (70%UR). A textura que a mistura tem que ter é de uma farofa bem úmida.
  3. Você pode esperar a massa descansar por 10 minutos. Mas eu sempre pulo essa parte!
  4. Encha a parte baixo da cuscuzeira com água até a metade. Encaixe o suporte do cuscuz. Despeje a massa, mas NÃO aperte. Ela precisa estar soltinha pra cozer.
  5. Tampe a panela e deixe cozinhar.
  6. Quando está pronta, você sente o cheiro do cuscuz. Isso significa que o vapor da água fervendo embaixo atravessou toda a mistura. Ou, sem poesia, deixe por 10-15 minutos.
  7. Pra ter certeza de que está pronta, coloque uma colher dentro da massa. Precisa estar “liguenta” (meu baianês não me permitiu achar nenhum sinônimo).
  8. Antes de desligar o fogo, quebre dois ovos crus sobre a massa dentro da cuscuzeira. Tampe de novo. Se gostar com gema mole, 2 minutos é suficiente. Para gema sem emoção, como diz o Vítor, 4 minutos.
  9. Separe sua porção no prato com uma passadinha de manteiga. Se for uma boa manteiga de garra, melhor ainda.

Quê mais?

  • Você pode substituir o ovo por cima por queijo.
  • Dizem que se você usar vinagre na água, a panela não mancha – mas eu tenho preguiça-mor de fazer essas coisas, então alguém confirme.

Bolinhos de Pêra e Gengibre

1 maio

É aquela história, né, dizem os estudiosos que cozinhar é um dos novos hobbies. De atividade enfadonha e obrigatória, se torna forma de lazer para os foodies e afins, e o comer assume o caráter de prazer – o que não é nada inédito, afinal. Alguns dirão que, na verdade, o hábito se populariza na contemporaneidade como jamais aconteceu, mas os dados ainda não são muito confiáveis. O fato é que os canais (especialmente fechados) de televisão incluem cada vez mais programas de culinária na programação, e algumas figuras se tornam bastante populares. Da elegância da Martha Stewart ao deboche do Larica Total, vale tudo.

A Nigella é dessas. Figura consolidada nos blogs, nas livrarias, nos programas de televisões. Gera até mesmo discussões mais acaloradas sobre seu jeito de cozinhar. A proposta dela, se podemos dizer que existe uma, é fazer uma comida guilt-free. Veja bem, ela é uma inglesa rechonchuda, que lambe os dedos enquanto cozinha e conta como manteiga e chocolate são coisas maravilhosas – enquanto despeja um tablete de cada numa receitinha. Eu, particularmente, acho ótimo. Meu irmão, nutricionista, estilo como-pra-viver e não uso nem sal, tem calafrios.

O fato é que esses bolinhos (muffins, em inglês) são das receitas dela. São mais um caso da minha conversão alimentícia, como diria a Ana Elisa. A história é a seguinte: Taisinha nunca gostou de pêras. Essa história de uma fruta aguada, sem gosto e cara não era pra mim. Isso porque, provavelmente, era comprada na época errada (voltaremos a essa história da sazonalidade depois). Foi aí que começou a perceber que muitas das frutas que eu não gostava in natura eram deliciosas quando aquecidas, com todos aqueles açúcares sendo liberados. Quando chegou a época das benditas, resolveu comprá-las e esses bolinhos pareceram uma boa ideia. E, verdadeiramente, são. Eu e namorido [outro suposto “mas eu não gosto de pêra!”] ficamos tão vidrados por eles, que já fiz essa receita repetidas vezes. A mistura do doce da pêra com o ardidinho do gengibre e a massa cremosa é excepcional.  Acalma qualquer coração (ou estômago).

Não se acanhem. Façam. Hoje, se possível.

Bolinhos de Pêra com Gengibre

Um pouquinho adaptada do Nigella Express

40 minutos pra fazer 12 muffins

Precisa de quê?

  • 1 e 3/4 xícaras de farinha de trigo
  • 3 / 4 xícara de açúcar
  • 1/4 xícara + 6 colheres de chá de açúcar mascavo
  • 2 colheres de chá de fermento em pó
  • 1 colher de chá de gengibre ralado [ela usa em pó]
  • 1/2 colher de chá de canela
  • 1 pitada de noz moscada
  • 2 / 3 xícara de creme de leite
  • 1/4 xícara de óleo vegetal [prefira sem sabor, como canola]
  • 1 colher de sopa de mel
  • 2 ovos grandes
  • 1 1 / 2 xícaras de pêras, descascadas e picadas em cubos de 3 cm [com ou sem casca]

Faz assim, ó

  1. Pré-aqueça o forno a 220ºC.
  2. Forre a forma de alumínio dos cupcakes com as forminhas de papel.
  3. Misture os ingredientes secos em uma tigela grande: a farinha, o açúcar, 1/2 xícara [do total] de açúcar mascavo, as especiarias e o fermento.
  4. Em uma tigela média, misture o creme de leite, o óleo, o mel, os ovos e o gengibre.
  5. Junte a mistura do líquido aos secos, mexendo apenas até misturar (não bater muito a massa faz bolos mais fofinhos). Junte a pêra em cubos, finalmente.
  6. Despeje a mistura nas forminhas [eu uso uma concha de molhos].
  7. Polvilhe cada um dos bolinhos com o açúcar mascavo restante, 1/2 colher de chá em cada.
  8. Leve ao forno por 20 minutos [no meu fogão porcaria, foram 40].
  9. Transfira para uma grade para esfriar uniformemente [eu uso a grade da churrasqueira do namorado, mas não se intimide com este passo].

Quê mais?

  • Ele é melhor comido morno. Especialmente com uma bola de sorvete de creme.

Amendoim cozido

26 abr

Éramos duas meninas amarelas vindas de Salvador numa tentativa frustrada de tentar socializar com brasilienses estranhos numa mesa de bar. Um senhor com um saco de estopa se aproximou da mesa, e chamou a nossa atenção: “amendoim, amendoim”. Na saudade de qualquer coisa familiar que nos faria sentir melhor, as mãos se moveram rapidamente pra pegar a amostra do produto. Mas, quando colocamos na boca, a estranheza:

– É seco.

Mais uma coisa na lista de decepções.

– É torrado – disse alguém – Mas o que vocês esperavam?

Quase em uníssono, contamos do amendoim cozido, comum nas festas juninas e que era impossível de parar de comer. A estranheza das pessoas foi um banho de água fria.

– Não, nunca ouvi falar disso em Brasília. Acho que ninguém faz desse jeito aqui.

E as várias tentativas de achar amendoim cozido nos meses seguintes confirmaram a teoria do nativo. Blam.

Ok, é verdade que essa história tem aquele tom nostálgico e chato da saudade de casa. Mas, de fato, esse era o momento, quando as coisas na nova cidade nunca serão tão boas quanto as de casa. Especialmente tendo Brasília, uma cidade bem fora dos parâmetros normais, de um lado e Salvador, com todo o ideário romântico da baianidade (então, eu disse que era socióloga!), do outro. Mas passou, ainda bem. Anos depois, muito mais adaptada em Brasília, descobri que podia comprar amendoim aqui e cozinhá-lo. Não vamos falar da quase obviedade disso. Mas eu não fazia ideia de como cozinhar arroz quando cheguei, então me dêem um desconto.

De qualquer maneira, pra quem nunca comeu amendoim cozido, você não sabe o que está perdendo. Apesar de ser comum no São João, sempre tem alguém vendendo no bar, em carrinhos na rua, então é possível comprar durante o resto do ano em Salvador e acredito que em outros estados do Nordeste. Comer amendoim cozido sempre me leva de volta pras festas do meio do ano em uma cidade no interior da Bahia, sentada na mesa com os primos e alguma tia dizendo que íamos passar mal por comer tanto. É a tal da comfort food. 

Minhas investigações sobre a receita comprovaram mais uma vez que essa história de comida típica não tem nada de única ou autêntica. O amendoim cozido, ou “boiled peanuts”, pode ser encontrado também no sul dos Estados Unidos, na China e na Índia.

Aqui em Brasília achei pra comprar o amendoim cru na Feira do Paraguai e na Feira do Guará, mas sei que também tem em Sobradinho. É possível que seja encontrado em feiras em outras cidades com migração nordestina. Na hora de escolher, peça pelo amendoim mais verde – é bem mais gostoso e cozinha muito mais rápido (lembrando que a melhor época pra comprar é junho-julho).

Amendoim Cozido

40 minutos pra fazer pra 4 pessoas comerem (ou duas pessoas esganadas)

Precisa de quê?

  1. 2 latas de amendoim cru (o sistema métrico da feira brasileira!)
  2. Água
  3. Sal
Faz assim, ó
  1. Pra tirar toda a sujeira, lave os amendoins até que a água barrenta fique limpa.
  2. Em uma panela de pressão (claro que também pode ser feito em uma panela normal, só vai demorar mais tempo), coloque o amendoim e adicione água, até cobrir o amendoim.
  3. Tempere: coloque sal na água até que ela tenha gosto de água do mar. Mesmo. A casca absorve bem o sal, então precisa ser bastante pra salgar.
  4. Feche a panela de pressão e leve ao fogo durante 40 minutos. Abra a panela e experimente um: se estiver muito duro, volte para o fogo. O amendoim deve estar macio.
  5. Agora coma acompanhado de cerveja gelada ou de uma cachacinha. É possível que não sobre nada e você não precisa se sentir mal por isso.
  6. Pra se sentir melhor, vá dançar forró depois. Dizem também que é afrodisíaco…
Quê mais?
  1. Se, por algum acaso inexplicável do destino, sobrar algum pouco, você pode manter na geladeira por três dias ou congelar. Depois, é só aquecer em água fervente de novo.
  2. Nos EUA, a água do cozimento tem outros temperos: você pode adicionar cerveja ou pimenta, por exemplo.


O primeiro

26 abr

Essa coisa de abrir alas pra uma coisa nova nunca parece ter as palavras certas.

Digamos que depois de cinco anos tendo uma cozinha própria (a.k.a sair da casa de mamãe e ter que cozinhar pra mim mesma), de adquirir marcas de combate com o fogão, e fazer coisas boas e coisas intragáveis,  tomando gosto pela coisa, chegou a hora de ter um blog sobre comida. Porque essa necessidade de partilhar com o mundo o que eu sou e faço é mais velha do que isso – o blog pessoal completa 8 anos mês que vem.

A proposta é mostrar que dá pra cozinhar – e se divertir com isso – numa cozinha apertada, com pouca grana (afinal, a bolsa da CAPES é uma merreca) mas com o prazer que me dá cozinhar e comer bem. E tudo isso misturado a um mestrado em Sociologia da Alimentação em andamento. Comida aqui é assunto de toda hora – e por isso a alcunha de #crazycooklady.

E deixa o resto pra ir contando depois.